Uma professora relata os desafios de trabalhar um tema que, enquanto aluna de ensino fundamental e médio, da graduação e da pós-graduação, jamais havia visto e debatido; leia o depoimento na íntegra
Profa. Lia Lemos, de São Paulo (Brasil)*
Sou formada em Ciências Sociais e fiz mestrado em Antropologia. Desde 2009, leciono disciplinas de Ciências Sociais em uma universidade particular de São Paulo. No final de 2011 fui convidada por uma coordenadora do curso de Psicologia a lecionar uma nova disciplina na grade do 3° semestre. Seria a disciplina de Relações Étnico-Raciais e Afrodescendência. A ementa veio muito bem organizada, planejada e com materiais de apoio tanto em vídeos, filmes, documentários e músicas como em artigos científicos, livros didáticos, leis e estatuto.
Tudo para cumprir com Lei 10.639/2003, que exige que se incluam no currículo escolar aulas sobre o tema. Saber da lei e de como trabalhar com as diferenças não foi novidade, visto que a antropologia é uma das áreas de conhecimento que trata do assunto da diversidade e já havíamos estudado no ano anterior a lei citada. A novidade se colocava na proposta de trabalhar um tema que eu mesma, enquanto aluna do ensino fundamental e médio, da graduação e da pós-graduação, jamais havia visto e debatido. Mesmo tendo estudado em escolas alternativas e tendo crescido com a diversidade econômica e racial, eu jamais havia ouvido falar e falado do assunto tão abertamente.
Já no final de 2011 comecei a estudar e me capacitar para poder lecionar a nova disciplina que recebi como um desafio empolgante. Foram livros, artigos, filmes e muita observação da sociedade antes e durante o semestre para estar atualizada e pronta para acolher dúvidas, curiosidades e opiniões diversas. Logo de início, o documentário Olhos Azuis da americana Jane Eliot, de 1985 [veja abaixo], me chamou a atenção de que a tarefa não seria fácil e poderia causar embate com os envolvidos.
Uma de minhas primeiras atitudes foi a mudança no tratamento com os alunos. Em vez de chamá-los de “meninas” ou “meninos”, troquei esse tratamento infantilizante pelo tratamento adequado e passei a chamá-los de “alunas” ou “alunos”, assumindo assim, no tratamento, o papel que eu como professora espero que eles tenham o de alunos e não o de crianças, (independente da diferença de idade, mesmo porque sempre há pessoas mais velhas e mais novas do que eu). Esclareci a mudança de tratamento para que os alunos tomassem consciência da sutileza de alguns preconceitos e de como podemos com pequenas atitudes melhorar nossos comportamentos.
Mas isso foi um pequeno passo, não o mais difícil e nem o mais significativo. Ao longo do semestre percebi uma grande curiosidade sobre o tema, um enorme interesse em debater, participar, colocar suas visões de mundo; a turma trouxe material, construiu material, criou debates dentro e fora de sala de aula vivenciando intensamente o conteúdo. Isso foi me dando ânimo e energia para solicitar cada vez mais a participação e o envolvimento da turma. A maioria absoluta declarou nunca ter tido nenhuma aula sobre o assunto e nunca ter podido falar com alguém sobre o tema.
Estratégias para lidar com o sofrimento
Alguns conteúdos e aulas levaram aos alunos temas pesados, doídos, sofridos, principalmente quando relatamos como eram os tratamentos que se davam aos escravos desmascarando as imagens de telenovelas e livros didáticos; a violência explícita e legalizada, crueldade, tortura, etc. Após lecionar essa aula eu mesma senti necessidade de fazer um respiro, aliviar os sentimentos e emoções. Para uma das turmas (eu estou lecionando para duas turmas diferentes, no todo em torno de 100 alunos) propus uma dinâmica de grupo para que todos pudessem expressar e aliviar os sentimentos.
Na atividade nos colocamos em roda de mãos dadas e fui “miscigenando” a sala, de modo que não houvesse segregação entre negros, pardos, brancos, amarelos, indígenas, homens ou mulheres (a sala possui uma grande diversidade étnica). Com todos misturados e de mãos dadas comecei a dinâmica de transformação de nossos sentimentos primeiramente com o tema “sinto muito”, “sinto muito por nossos antepassados terem sofrido tanta violência”, quem quisesse poderia acrescentar outras palavras e o fizeram. Na segunda rodada comecei com o tema “me desculpe”, pedindo desculpa por também fazer parte da sociedade que é preconceituosa e que discrimina.
Em seguida foi o tema do “eu perdoo”, “perdoo aqueles que cometeram tais atrocidades, seguindo a cultura vigente, e inconscientes de seus atos”. Nessa rodada alguns alunos relataram não conseguir perdoar, pois o sofrimento é grande e é difícil compreender que, mesmo sabendo que determinados comportamentos e falas são racistas, as pessoas ainda os cometem. Todos respeitaram e ouviram os perdões dados ou não. Por fim, para terminar com algo de positivo fiz a rodada do “eu amo”, “amo a espécie humana e sua capacidade de transformação”, e muitos alunos demonstraram seu amor à espécie, sem distinções de raças ou cores. Em alguns momentos, alunos se emocionaram, lágrimas correram, a voz embargou, conseguiram aliviar alguns sentimentos, colocar pra fora suas opiniões. Alunos que jamais haviam falado em sala se sentiram a vontade, se abriram, se emocionaram e fizeram parte do coletivo.
Os alunos começaram a se envolver com os conceitos e a debater fora de sala, observando-se a si mesmos e à sociedade. Em sala começaram a relatar experiências cada vez mais íntimas de observação ou de vitimização de preconceitos e racismo. Levaram propostas de atividades, reflexões próprias, debate com o que estava acontecendo na mídia em tempo real. Muitos alunos perceberam a oportunidade de falar o que sofreram, dos mais diferentes tipos de discriminações e preconceitos. Como professora, para demonstrar que eles tinham ali o direito de expor suas histórias de vida, eu mesma tive que expor a minha própria história, expor os momentos em que também fui vítima de perseguição e ridicularização, e de como busquei ajuda e não fui ouvida, de como superei o que me faz diferente e única. Alunos me procuravam fora da sala para revelar histórias íntimas e particulares e pedirem orientações. Tive que ir descobrindo junto com eles e construir junto com eles soluções e reflexões.
Brincamos, debatemos, crescemos todos juntos nessa experiência. Um dia propus outra atividade em pequenos grupos, para que eles pudessem trocar experiências e conhecimentos, para que pudessem respeitar o pensamento e a opinião do outro e conseguir argumentar e explicar sua visão de mundo. A atividade era simples, debater questões raciais em grupos, tentar explicar qual era o tipo de preconceito simbólico, sutil, cordial, ambivalente[1] existente em uma frase, imagem ou notícia. A maioria dos grupos conseguiu encontrar saídas para explicar as questões, alguns ficaram com duas respostas diferentes (não havia certo e errado, o importante aqui era o debate, a troca de experiências); porém alguns alunos não conseguiram manter sua individualidade separada do debate, o que os fez sentir-se julgados e avaliados pelos demais alunos que debatiam sobre as questões.
Momentos difíceis
A atividade acabou mexendo com os valores escondidos em cada indivíduo e o debate foi interpretado por alguns como uma acusação de que o outro era racista ou preconceituoso. A turma terminou a atividade e os grupos me entregaram suas respostas, porém nos dias seguintes o racismo aversivo se transformou em racismo flagrante[2]. Ofensas, agressões verbais, calúnias e difamação entre os alunos. Como professora passei a ser discriminada, rejeitada e evitada por alguns alunos, sem saber o porquê, do que exatamente eu estava sendo acusada, o que havia sido julgado e mal interpretado. Passei a sofrer na pele o que Jane Eliot passou em vida e o que os negros passam há séculos.
O problema central continuou inexistente uma vez que esse grupo não falou abertamente comigo o que estava acontecendo, os alunos que se sentiram julgados e acusaram os outros, se silenciaram e me discriminaram. Por outro lado, outra parte da turma começou a demonstrar como seria um debate de superação das diferenças, continuaram levando temas atuais para a sala e para a lista de e-mail da turma e a mostrar como é possível ter opiniões diversas e conseguir debater academicamente, trocar experiências e aprender com o colega e ainda manter a amizade.
O sentimento de fracasso, impotência e distanciamento com a outra parte fez com que eu entrasse em uma luta para recuperar a mim mesma. Vê-los sofrer, vê-los perdidos e não ter como orientá-los me desconsolou por algumas semanas. Até que recuperei um novo conteúdo da disciplina: o aprendizado pela perspectiva africana. Para os africanos o mestre é um orientador, um conselheiro, as pessoas aprendem vivendo e não decorando ou memorizando conteúdos[3]. Às vezes é preciso cair para aprender a se levantar e começar de novo. Imbuí-me desse conteúdo para compreender que agora era hora de cada um aprender a conduzir a própria vida e que minha função como mestre era continuar ali para o momento que precisarem de outra orientação. Tive que sair do papel de professor “tradicional”, de professor “construtivista” e assumir o papel de “mestre africano”. É difícil vê-los perdidos. É gratificante vê-los encontrando saídas. É renovador poder transformar a mim mesma junto com essas pessoas.
Depois de um mês e meio refiz a atividade em grupo com algumas alterações para que diminuísse a possibilidade de julgamento entre eles e que o foco ficasse no texto. Solicitei que cada aluno ao término da atividade relatasse o que havia aprendido e se a atividade havia sido uma experiência positiva ou negativa. Os relatórios foram unânimes: a atividade tinha sido um sucesso. Após um semestre trabalhando com um tema tão delicado e tendo que semanalmente dar suporte para os embates internos e externos, finalmente conseguimos chegar ao final do semestre com um aprendizado e uma experiência positiva. Os alunos me procuram fora de sala para os mais diversos assuntos acadêmicos ou pessoais, me convidam para atividades de suas vidas sociais, me abraçam e sorriem sempre quando me veem. Tenho ainda dois ou três alunos que não conseguiram encontrar seus caminhos, mas continuo torcendo para que se levantem e sigam no controle de suas vidas.
Tomar consciência da minha e da nossa consciência negra tem sido um grande aprendizado durante esse semestre. Para mim todos meus alunos são nota 10. Mas a aprovação que terão na vida será muito mais importante do que a nota de uma disciplina em um semestre de suas vidas. Quem vai aprová-los será cada um por si só durante seus embates pessoais. Eu tenho me esforçado em fazer minhas tarefas e aproveito essa oportunidade de compartilhar com todos que estão na busca pela consciência negra, como tem sido a minha experiência nesse desafio social.
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Assista aqui o documentário citado pela professora:
[1] LIMA, Marcus Eugênio Oliveira; VALA, Jorge. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de Psicologia (Natal), dez. 2004, v.9, n.3, p.401-411.
[2] Idem.
[3] SILVA, Petrolina Beatriz Gonçalves. Aprender a conduzir a própria vida: dimensões do educar-se entre afrodescendentes e africanos in SILVÉRIO, Valter Roberto; ABRAMOWICZ, Anete; BARBOSA, Lúcia Maria Assunção (Coords). Projeto São Paulo Educando pela Diferença para a Igualdade. Módulo II – Ensino Médio. 2004. Universidade Federal de São Carlos – NEAB / UFSCar, p. 85-96.


2 Comments
Lia,
Parabéns por sua experiência marcante e dedicação!
Imagino como tem feito a diferença na vida dos seus alunos.
Um Grande Abraço,
Thomaz
O que você nos mostrou foi uma visão totalmente diferente daquilo que sabíamos, e eu pude aprender realmente sua matéria quando participamos do projeto social…
O que você nos ensinou – na verdade posso dizer que você abriu nossa visão – fez com que muitos fossem atrás de quem realmente é excluído dessa sociedade.
Você fez muitos terem aquela vontade de ir atrás de quem realmente precisa de ajuda, de quem precisa de uma palavra, de quem sofre preconceito…
Você construiu dentro de uma sala de aula, algo que nenhum professor conseguiu fazer antes, construir laços….
Havia pessoas ali que eu não gostava, porque? Eu não sei… e com o que você nos ensinou e o trabalho fora de sala fez com que isso acabasse…
Infelizmente sabemos que cada indívuo é único e individual, que nínguem tem a mesma percepção…
A vida ensina, mas você nos mostrou a realidade desconhecida…
Obrigado por ter me ensinado durante 1 ano e meio… vou sentir sua falta em sala de aula…
Você é mais que uma professora… você é uma amiga…
Pode ter certeza que em todas as salas que você entrar, jamais será esquecida…
Obrigado Mestra….