Docentes rechaçam acordo entre o Sindicato Nacional e governo sobre diretrizes da profissão, além de protestar contra avaliação nacional; diários não aprofundam as demandas dos docentes e restringem suas fontes a apoiadores da aliança
Fernanda Campagnucci*
do Vozes da Educação
Dezenas de milhares de professores – 130 mil, segundo os organizadores da manifestação – saíram às ruas na última semana para protestar contra diversas políticas recentemente implantadas pelo governo mexicano.
O Vozes da Educação realizou a análise da imprensa mexicana no período de 26 de janeiro a 9 de fevereiro e constatou que, a depender da cobertura do episódio nos principais jornais, pouco se sabe sobre as opiniões dos professores e suas reais motivações. Também são escassos os artigos analíticos sobre os temas em debate.
Os docentes – dissidentes do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação (SNTE) – pedem o fim da Avaliação Universal Docente, programada para junho, e da prova ENLACE (Evaluación Nacional del Logro Académico en Centros Escolares), instrumento de avaliação da educação nacional, pública e privada.
Além disso, os professores protestam contra a chamada Alianza por la Calidad de la Educación (ACE), que a Secretaria de Educação Pública (SEP), ministério da educação mexicano, firmou com a SNTE.
No entanto, quando ouvidos, os docentes afirmam não se oporem à avaliação docente – como insinuam os jornais, especialmente em seus espaços de opinião – mas se dizem contra esse instrumento específico criado pelo governo e a forma como será utilizado.
(Vídeo produzido por Educación a Debate é exceção da cobertura
por trazer vozes dos docentes)
Críticas
Um artigo publicado no jornal La Jornada – exceção na cobertura – trouxe argumentos para explicar porque os professores se opõem a esse instrumento. De acordo com o autor do artigo a política foi definida com assessoria de economistas da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), com quem o governo Mexicano firmou um acordo para a educação.
No documento da OCDE (baixe aqui em pdf), se afirma que “os docentes que apresentarem um baixo desempenho de forma permanente deverão ser excluídos do sistema” (página 7). Mas esse desempenho é medido com base nos resultados da avaliação ENLACE, prova “standarizada”, que por sua vez já recebeu diversas críticas de especialistas.
Também apresentou a opinião dos professores e realizou uma cobertura mais analítica o portal Educación a Debate, especializado na cobertura de políticas educacionais no México. A crônica “Puertas cerradas y oídos sordos” (portas fechadas e ouvidos surdos), publicada em 4 de fevereiro, traz vozes de professores presentes nas marchas, inclusive em vídeo. Leia aqui.
Conflitos entre sindicatos
Os jornais La Reforma e El Universal, de tendência política conservadora, publicaram as opiniões da SNTE afirmando que a CNTE (Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación), organismo opositor ao Sindicato Nacional – engana os docentes ao dizer que a prova de desempenho será utilizada para punir professores.
Também enfatizaram transtornos causados pelas manifestações, como problemas de trânsito, e ouviram com destaque pais e mães de alunos criticando a paralisação. La Reforma publicou, em 3 de janeiro, a notícia “Avalan padres de familia la evaluación a los maestros”, ou seja, pais de família aprovam a avaliação de professores.
A principal divergência das organizações sindicais que se opõem à SNTE diz respeito ao “Programa de Carrera Magisterial”. Dez sindicatos independentes apresentaram denúncia à Comissão Nacional de Direitos Humanos contra a Secretaria de Educação Pública, por excluir do Programa professores não filiados à SNTE. O acordo que favorece a SNTE foi firmado em maio de 2011, na “Comisión Nacional de Mixta de Carrera Magisterial”, da qual o sindicato faz parte.
Os temas mais comentados no México na última quinzena
Além do movimento de protesto contra as políticas de avaliação, outros assuntos tiveram destaque nos jornais mexicanos:
Ensino médio superior obrigatório – uma mudança na Constituição mexicana tornou obrigatória essa etapa de ensino – posterior ao ensino secundário e que prepara para o ingresso no ensino superior. A partir de agora, o Estado deve oferecer o ensino médio superior de forma gratuita. Pouco se debateu sobre os custos e a forma de implantação da nova regra. Atualmente, um terço dos jovens tem acesso à etapa.
Os ninis – “Ni trabajan, ni estudian” (daí o nome), os ninis somam 7,8 milhões de pessoas, segundo a Secretaria de Educação Pública (SEP). Em uma coletiva de imprensa, o subsecretário da SEP afirmou que não se deve encarar o fenômeno do ponto de vista da “vagabundagem”, e que 75% dos “ninis” são mulheres, donas de casa, que realizam tarefas essenciais para a reprodução doméstica. O jornal La Jornada publicou, no dia 27, a reportagem “Insiste SEP em que ninis son amas de casa”.
Outra notícia importante que não teve grande repercussão
Educação indígena – Rosalinda Morales, titular da Dirección General de Educación Indígena (DGEI), reconheceu que a modalidade é a que tem maior déficit de infraestrutura no país. Em 35% das escolas de educação indígena, que deveriam possuir currículo diferenciado, as aulas acontecem somente no idioma espanhol. Um milhão e 300 mil alunos indígenas frequentam a modalidade. Publicado no portal Educación a Debate.
* Colaborou Lia Segre
