E quando os professores faltam ao trabalho?

Países adotam estratégias para diminuir faltas dos/as docentes, mas nem sempre atacam as causas do problema; como é o debate em sua localidade? Participe!

Fernanda Campagnucci*
do Vozes da Educação

No debate sobre a questão docente, um tema sempre vem à tona na maioria dos países latino-americanos: a frequência com que os docentes faltam ao trabalho.

A abordagem varia da culpabilização dos educadores – tachados de preguiçosos e irresponsáveis – à compreensão de que o absenteísmo está diretamente ligado a fatores como estresse e más condições de trabalho.

Outra pauta que provoca esse debate é a escassez de professores nas escolas, sobretudo os especialistas em disciplinas como física e química, por exemplo. Esse é um desafio que muitos países enfrentam, por causa da baixa atratividade da carreira.

A resposta ao problema também é diferente em cada lugar: em alguns estados do Brasil e na Argentina, por exemplo, foram criadas leis para premiar com bônus aqueles que não faltam, ou mesmo punir aqueles que se ausentam.

Nesta edição do “Notícias em Debate”, o portal Vozes da Educação traz informações e materiais sobre o absenteísmo docente em diversos países latino-americanos. Durante 15 dias, o texto ficará em destaque no portal para sugestões e comentários. Como é esta realidade em sua cidade, estado ou país? O que fazer para tornar a carreira mais atrativa e diminuir o absenteísmo? Comente!

(Clique para expandir o texto referente a cada país)

Na cidade de Buenos Aires, a baixa atratividade da carreira faz com que não haja docentes em número suficiente em diversas escolas. O jornal argentino Página12 publicou, em maio, a informação de que há um déficit de 600 professores em escolas primárias (de um total de 30 mil cargos) e de 300 professores no ensino médio (entre 15 mil vagas).

Para o secretário-geral da União dos Trabalhadores em Educação (UTE-Ctera) na capital, Eduardo López, isso ocorre porque as condições de trabalho não atraem os jovens . “Esta situação pode ser revertida se houver mais investimentos em educação”, diz na reportagem.

No caso das crianças, os professores se desdobram para juntar turmas. Já os alunos de ensino médio ficam com a hora livre quando falta um professor – o que pode se estender por meses, em alguns casos.

O sindicato solicitou um pacote de medidas para solucionar a questão, que vão de melhora salarial ao oferecimento de bolsas de estudo para estudantes de pedagogia. Além disso, pleiteia o fim do “professor taxi” de ensino médio, para que o docente possa acumular horas-aula em um só estabelecimento escolar. Esse é objeto da Lei de Professor por Cargo, aprovada pelo Legislativo em 2011, mas que, segundo o sindicato, ainda não foi implantada pelo governo de Buenos Aires.

“Face às difíceis condições nas quais o trabalho docente está submetido, os professores constroem diversas estratégias de sobrevivência, alguns contornam os problemas dando ênfase aos saberes escolares ou à avaliação, procurando escapar da deriva ou impotência; outros (a maioria) adotam estratégias de fuga, com formas mais ou menos visíveis, que vai do abandono da profissão, mudança de função, remoção entre escolas até o ausentismo no emprego”, explica Aparecida Neri de Souza, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Neri é uma das autoras da publicação “Por que os professores faltam ao trabalho?”, do Observatório da Educação (baixe aqui em PDF).

No Brasil, estudos da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) apontam que as difíceis condições enfrentadas pelos professores no trabalho têm efeitos sobre a saúde. Os docentes (26%) estariam submetidos à síndrome de burnout, que provoca esgotamento emocional e ou físico, redução da produtividade no trabalho, sentimento de despersonalização. Mas, para ela, o chamado “mal-estar docente” não afeta apenas o Brasil, já que é um fenômeno social do mundo ocidental.

“O absenteísmo ou ausentismo dos professores pode ser enfrentado pela formulação de políticas públicas, pelo Estado, na direção de criar condições para que o trabalho docente possa ser realizado mais satisfatoriamente”, defende Neri.

Edna, professora da rede estadual de ensino de São Paulo, enfrentou problemas nas cordas vocais e teve que ser afastada de suas funções. “Eu tive muitos problemas de saúde, faltei muito, assumi minhas faltas, tive muito prejuízo salarial. E nas ações do governo, eu nunca percebi qualquer preocupação com o professor que adquire problemas no desempenho de suas funções. E não só professores com uma doença específica. As condições de trabalho afastam o professor do seu local de trabalho. Muitas vezes ele prefere fazer qualquer outra coisa a estar na sala de aula. E não é só por causa da indisciplina do aluno, mas por uma causa estrutural e maior”, desabafa (veja seu depoimento na mesma publicação).

O estudo “México: Políticas-Chave para um Desenvolvimento Sustentável”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que 67,5% dos docentes mexicanos faltam frequentemente às aulas.

O documento, de 2010, revela que os professores do país gastam 34 dias no ano em cursos, oficinas ou conferências – a média dos países-membros da OCDE é de 15 dias. Os dados foram coletados a partir do relato de diretores sobre os docentes, e não com base em registros oficias. Baixe o estudo na íntegra aqui.

O estudo ressalta que, entre as causas que devem ser atacadas pelas políticas públicas, está o fato de os professores possuírem mais de um emprego ou lecionarem em mais de uma escola, em períodos diferentes. No entanto, recomenda que seja implantado um sistema de avaliação de desempenho docente, sem o qual, diz, é pouco provável que se melhore o desempenho dos estudantes.

Em 2007, mesmo ano em que as informações do relatório da OCDE foram coletadas, um estudo de caso sobre estresse de docentes da educação básica no México mostrou maior presença de fontes da doença em questões de ordem social: relações com os pais de família, colegas, autoridades e principalmente com a indisciplina de alunos. Há ainda, de acordo com a pesquisa, falta de apoio em diversas instâncias: familiar, governamental, entre colegas, diretores e meio sindical.

Outras fontes de estresse importantes têm a ver com a estrutura organizacional da escola: atender grupos numerosos, horas requeridas para correção de trabalhos de alunos, tarefas administrativas e outras em que sofre com a falta de tempo. Com relação a condições gerais de trabalho se destaca a falta de oportunidades de formação contínua, salário baixo para a carga de trabalho apresentada e carência de recursos indispensáveis para o ensino.

O estudo conclui que 88% dos docentes do estafo de Guanajuato sofrem algum tipo de pressão relacionada a estresse laboral, e chama a atenção que 54% deles sofram níveis de pressão moderada e severa (clique aqui para ler o artigo).

No Uruguai, os professores que não faltam recebem o chamado “presentismo”. Em 2011, houve uma mudança no pagamento desse bônus, que passou de trimestral a anual. A diretora geral do Conselho de Educação Secundária, Pillar Ubilla, atribui a essa alteração uma leve queda no absenteísmo docente verificado no ensino médio (clique aqui para ouvir o áudio de sua fala em julho do ano passado, no site da presidência uruguaia).

Pillar Ubilla afirmou, na ocasião, que a situação requer um trabalho conjunto com a Federação Nacional de Professores de Ensino Secundário do Uruguai (Fenapes) e a Assembleia Técnico Docente (ATD).

A federação sindical chama a atenção para as condições de trabalho, e realiza uma campanha para diminuição da jornada.

* Com a colaboração de Lia Segre e Vanessa Ramos

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10 Comentários

  1. Claudenice Palaci
    Publicado dia 27/01/2012 as 1:39:08 | Permalink

    Tornar a profissão realmente atrativa! Melhores condições de trabalho, melhorias salariais equiparadamente às demais profissões com nível superior, quebrar a imagem do professor “contadinho” e sofressor.

  2. Avatar of Rogério Antônio Rosa Rogério Antônio Rosa
    Publicado dia 27/01/2012 as 3:04:54 | Permalink

    Os problemas da educação são: Professor muitas ausenta-se por motivos de doenças pessoais ou familiares, stress, perda da autoridade em sala de aula, baixos salários, pressão para aprovação para aqueles aprendizes que não querem nada com nada, ausência dos pais em todos momentos da aprendizagem, governos que trocam a cada 4 anos regras sem consultar adequadamente os educadores, governadores ferem leis federais como redução obrigatória para que o educador prepare suas aulas e outro exemplo foi aprovação da Jovem de 15 na Universidade Federal do Moto Grossso,onde LDBN determina que somente ao concluir o ensino médio poderá frequentar o ensino superior(um juíz achou que não e disse sim para tal ato). Desta forma quem manda O MEC ou Judiciário? Preparamos o aprendiz para ENEM e o que acontece todos anos? Não podemos pegar receitas de outros países e sim que governantes nos vejam como pessoas e não como babás ou objetos.

  3. Severino José
    Publicado dia 28/01/2012 as 12:39:16 | Permalink

    Acredito eu que em nosso país os professores faltem por ter perdido a crença que a educação transforme alguem. Nossos politicos passaram pela Escola e em que eles se transformaram????? Realmente se faz uma comédia a politica em nosso país, desde a invasão do Brasil pelos Europeus até os dias atuais nossos governantes não passam de marionetes nas mãos de grandiosas multinacionais que fazem aqui o que querem, e nós brasileiros somos tão ingenuos que não somos capazes de ver essa dura realidade. Nossa patria mãe gentil, quer mesmo é que continuemos assim, cegos para a real aparência que nossa educação possui.

  4. Publicado dia 29/01/2012 as 11:23:20 | Permalink

    Uma carreira se torna tão mais atrativa quanto maior e melhor é o seu salário e plano de carreira. Além disso, as condições de trabalho influenciam o ambiente escolar e a dinâmica do trabalho, contribuindo para o seu melhor ou pior desempenho. A questão central reside em se valorizar o profissional e o seu trabalho.

  5. Miriam Medina
    Publicado dia 30/01/2012 as 5:41:41 | Permalink

    Hola a todxs!

    Algunos de Uds. han mencionado distintas aristas para pensar: salarios bajos, pérdida de autoridad en el aula, falta de reconocimiento, macro políticas desvinculadas de la consulta a los docentes o mejor dicho desarticuladas…problemas de salud y podríamos seguir enumerando…

    Sin duda, el problema es bien complejo, pues hay pujas entre cuestiones “objetivas” valor del salario, lo puse entre comillas porque en realidad no podemos hablar de algo netamente objetivo y otras, de índole subjetivo como el la percepción que tienen los docentes de sí mismo, los diferentes intereses sectoriales, la imagen que proyectan los medios de la tarea docente en sí.

    Sin tener certeza alguna, lo que cuestionamos algunos docentes es la falta de reconocimiento de la tarea. Alguien comentaba sobre los “bonos” como una de esas formas…no creo que sea la única, pero a muchos nos pesa ir de manera comprometida, pensar, preparar ( que por supuesto es parte de nuestro trabajo) y a fin de mes estar a la par del que falta sistemáticamente por ejemplo…
    ¿qué opinan?

    Muy bueno el espacio!
    Miriam

  6. Avatar of isabela de araujo corrêa agrizi Isabela Corrêa
    Publicado dia 03/02/2012 as 9:13:06 | Permalink

    Aumentar os salários somente não funciona. O que realmente resolve é um maior interesse por parte dos políticos em melhorar a educação no páís e não somente usar a educação como jogo político. É o envolvimento de toda a sociedade na melhoria da qualidade de ensino. É a consciência de toda a população de que a educação é capaz de transformar um país.

  7. elenilda
    Publicado dia 06/02/2012 as 11:55:07 | Permalink

    Aqui na minha cidade Governador Nunes Freire-Maranhão,não é diferente nós professores necessitamos muitas vezes ter que faltar a escola,porém existem ai dois grupos:os que faltam uma vez e outra por necessidade e os que faltam por qualquer razão.O que precisa mesmo é a comunidade local e pricipalmente os pais dos alunos prejudicados pelo segundo grupo”professores que faltam por qualquer razão”,cobrar e intervir.Afinal são os seus filhos que vão sair prejudicados.A escola sozinha não conseguirá combater as” faltas “de muitos colegas professores que não assumem o seu compromisso e agem muitas das vezes irresponsalvemente.

  8. Avatar of marcelo mosqueira marcelo mosqueira
    Publicado dia 07/02/2012 as 11:09:40 | Permalink

    el tema de la evaluación de los docentes es complejo, porque no podemos pensar el problema de manera aislada, tratando un solo aspecto de la practica pedagógica que involucra muchos aspectos. No se puede discutir la necesidad de pensar la actualización y capacitación de los maestros y profesores. Pero no hay que permitir que se plantee el problema como una medida de un gobierno que quiere dar respuesta y hay un sector que se opone por acciones coorporativas o irracional como plantea el gobierno de la ciudad autónoma de Bs. As, un gobierno de derecha, no podemos dejar de señalar que este mismo gobierno, el de Macri vetó en enero de este año una ley, que fue votada por los mismo legisladores de su partido, que proponía crear un congreso pedagógico en la ciudad para discutir la educación en su conjunto, pero la presión de la iglesia y de los sectores de escuelas privadas que reciben el subsidio estatal no querían el debate por tener miedo a que se discutan sus privilegios. Por eso creo que Macri plantea el problema, pero su propuesta pone en evidencia que busca disciplinar a un sector que le es adverso a su política y lo que esta implícito en hablar de la Evaluación de los docentes, es ubicar a este sector social como responsable de una evidencia inapelable que es la actual inconexión entre la educación y el mundo del trabajo o la apropiación por parte de los jóvenes de ciertos saberes y de un capital simbólico que le permita insertarse en la vida social de forma activa. creo que en realidad tendríamos que hablar desde una perspectiva mas amplia y pensar el problema educativo, de la escolarización, como una necesidad de discutir la lógica atomizada con la se piensa y se decide la practica aúlica, la falta de apertura a los otros, entendiendo que los jóvenes son portadores de valores, experiencias vitales y portadores de otras ideas de futuros diferentes a la que se espera en las aulas (este es otro tema a trabajar) y en general la diferencia es vista como déficit. en este sentido hay que discutir con los docentes desde una perspectiva pedagógica que lo comprometa en la construcción de un proyecto educativo, social y cultural que sea democrático, solidario, colectivo y popular. marcelo mosqueira

  9. Rosane Pio Bruno
    Publicado dia 17/02/2012 as 5:46:13 | Permalink

    Durante as férias preparei minhas aulas. Editei filmagens que fiz durante o ano passado dos trabalhos desenvolvidos com meus alunos. Minha intenção era receber os novos alunos mostrando-lhes o faríamos e como seriam legais as nossas aulas. A realidade: A sala de vídeo e a de informática estão lotadas de livros e apostilas! Bom ano!

  10. Publicado dia 20/02/2012 as 4:52:08 | Permalink

    Gostei muito de todas as discussões aqui apresentadas. Destaco as opiniões da Miriam Medina e Marcelo Mosqueira. Saudações a todos.

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